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Amor que a vida ensina
Escrito por Emerson Cruz   
Meu primeiro Valentine's Day

Que noite!
A vida real é bem diferente daquela apresentada em filmes, novelas, romances de bolso, etc.
Todo mundo sabe disso, quantidade maior ainda ignora...
Dentre as inúmeras diferenças vou me ater a uma em especial: linearidade.
A história da vida de qualquer pessoa está longe de ser linear. Não-linearidade, caoticidade constituem o cenário que mais se aproxima do emaranhado de linhas do destino na vida de cada um de nós e é justamente isso que torna a vida de cada um uma história única e especial, pois contrariamente às linhas de campo elétrico, as linhas da vida se cruzam . Entretanto, histórias quando contadas de maneira linear (começo, meio e fim) agradam mais, assim tentarei ordenar os fatos principais.

Em determinada manhã de outono em 2008, estava eu caminhando pelo campus (atrasado como de costume) em direção à minha sala, quando notei uma moça lutando bravamente para carregar uma caixa cheia de livros do outro lado da rua. Andava alguns metros e logo se rendia ao cansaço apoiando a caixa onde fosse mais fácil. Eu não podia ficar alheio a isso, simplesmente não consigo. Fui até ela e ofereci minha ajuda, aceita prontamente.
Para meu azar a caixa era pesada pra mim também, por sorte ela estava indo para o mesmo prédio que eu. Distante "somente" 1km dali. No final tudo acabou bem, cheguei atrasado (nada de novo) e ela ficou agradecida.
Ok.
Saltando no tempo, alcanço o fatídico dia 14 de fevereiro: Valentine's Day, o análogo americano para o nosso 12 de junho.
Americanos adoram celebrar datas, ou seja, balões em forma de coração, flores, músicas, enfim tudo estava vestido de romance.
E daí? Daí que para um single não é a data mais agradável de se celebrar!Rs
No meu caso a situação ganhou uma apreensão adicional justamente porque tenho o hábito de assistir a pelo menos um concerto por mês aqui em East Lansing e já tinha comprado o ingresso para o dia 14/fev sem me dar conta da data e do evidente tema central do show.
Quase desisti...No último momento, verifiquei a profunda tolice que estava prestes a cometer e fui, afinal Orquestra é sempre Orquestra. Mal sabia eu que a noite me guardava fortíssimas emoções, reflexões, aprendizado e cia. ltda.
Uma vez no local, me dirigi ao hall de entrada e entreguei, como de costume, o ingresso para a hostess que além do rotineiro e educado Welcome! Enjoy the show me disse um I know you! Percebendo minha face interrogativa, ela explicou que fui eu quem a ajudou com a caixa de livros. Eu disse, "pode ser, quem sabe" e sorri .
Na verdade, eu realmente não recordava do rosto dela...Primeira lição da noite: boas atitudes, ainda que pequenas, são pra sempre!
Com isso em mente dirigi-me ao meu lugar. Cruelmente o assento ao lado do meu era o único livre na minha fileira. Sem problemas, meu amigo invisível rapidamente ocupou o lugar. Ao meu outro lado estava uma senhora acompanhada de seu digníssimo esposo impecavelmente trajado, conversavam quase formalmente sobre o programa do show. Apagam-se as luzes, orientação para desligarmos o celular e o Maestro adentra, aplausos.
Parênteses sobre o Maestro se faz necessário.

O Maestro "da casa", Timothy Muffitt é um tipo de herói local , além de ser o Diretor de Música e Condutor oficial da prestigiosa Lansing Symphony Orchestra, enfim, um dos orgulhos da comunidade. No entanto, nesse dia outro Maestro dirigiria a orquestra, o sr. David Wiley.
Confesso que isso me deixou um pouco apreensivo (sou fã do Muffitt), ainda que o curriculum do Maestro convidado é deveras impressionante.
Iria agradar? A Orquestra iria corresponder?
Segunda surpresa e aprendizado da noite: o Poder da Simpatia.
Já os primeiros passos no palco, passos firmes, decididos, mostraram confidência e determinação. Sem dirigir uma palavra ao público regeu a primeira peça da noite com uma paixão indescritível seguida pela imediata excelente perfomance dos músicos. Terminada a peça ele se voltou para o público e com um largo e sincero sorriso elogiou a Orquestra e agradeceu a comunidade pela honra de estar ali. O maestro FAZ DIFERENÇA e ele ensinou isso com excelência nessa noite.
Após os agradecimentos, ele enalteceu o tema da noite e perguntou quantos ali eram recém casados, várias mãos levantadas. Foi além : quantos casados há 10 anos, 20, 30, 40 , 50! Não acreditei...uns 40 casais (no mínimo) acenaram positivamente à pergunta dos 50 anos!
E adivinhe... Um deles era aquele do meu outro lado!
Meu Deus...50 anos de casamento...40 casais (no mínimo) bodas-de-ouro superaram a neve e resistiram a comodidade e conforto de casa para celebrar o Valentine's Day! Percebi que algo de extraordinário na minha vida estava acontecendo diante de meus olhos.
O show seguiu redefinindo minuto-a-minuto o conceito de maravilha. Uma combinação belíssima da Orquestra com o dueto formado por Christina Ashford e Noeman Large. O tempo voou e não acreditei quando chegou o intermezzo após a famosa canção: Anything You Can Do .
A segunda parte foi melhor ainda, mas, para mim, o ponto alto foi quando aconteceu Music of the Night da peça O Fantasma da Ópera .
Daí não deu pra segurar, o casal ao meu lado permitiu as mãos se encontrarem (o tempo é mesmo relativo). Foi lindo de ouvir, lindo de ver, lindo de sentir.
Terminado o show, decidi andar um pouco (tinha que faze-lo!) sob os flocos de neve que caindo com velocidade constante pareciam desafiar a lei da queda dos corpos.
A Ciência adiciona beleza ao artisticamente percebido, nunca subtrai.
De facto.
Em minha alma o conceito de Amor inaugurava nova dimensão além, muito além, do ingênuo conceito que me levou à hesitação inicial em atender ao show.
Em minha mente, recordava Horace(Horácio):

Think to yourself that every day is your last. The hour to which you do not look forward will come as a welcome surprise.

Adicionando, claro, o ingrediente mais importante: significado.

Última surpresa da noite: o ônibus estacionou no exato momento em que cheguei ao ponto(em noite com neve isso faz uma enorme diferença!).
Embarquei. Coração repleto de sentimentos e, na alma, impressões que levarei para o resto de minha existência.



























 

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